Diferenças e a Harmonia

“A coisa mais fácil do mundo é encontrar diferenças. Difícil é harmonizá-las.”

Dalai Lamapatinhos

Estes dias vim conversando com outra professora da escola em que eu trabalho sobre isso. Como somos diferentes! E queremos sempre encontrar alguém que concorde conosco, que apoie a nossa ideia, que adivinhe o que nós queremos dizer, o que estávamos pensando, o que sentimos… doce ilusão e como causa dor pensar desta forma. 

O que traz tranquilidade e harmonia é o diálogo. Mas para isso, não basta só sentar e conversar, falar o que se pensa, de forma desorganizada. É preciso estar disposto, respirar fundo e buscar se colocar no lugar do outro, por traz de sua retina. Dar um pause nas conexões mentais que elaboram pensamentos o tempo todo, e procurar seguir a linha de raciocínio, a construção mental que o outro está elaborando. Procurar tentar detectar o porque do comportamento alheio inicialmente de um prisma positivo, dando oportunidades ao outro de demonstrar o que sente. Para isso é preciso paciência. Tempo. Ah… o tempo. Este nosso escasso amigo, que anda distante, viajando muito, e por isso, quase não o encontramos. No mundo atual, você está 24 h conectado com os outros e desconectado de você, de quem está do seu lado no dia a dia, na sua casa. Então como obter harmonia sem diálogo, sem olho no olho, sem ouvir uma música juntos, sem compartilhar pensamentos e dificuldades?

O desafio da atualidade está em ser você, em mostrar você, sem deixar de olhar o outro, de estar com o outro, de estar para o outro, de estar no outro, conectado na alma, e não somente na sua rede social preferida. Estar conectada com o coração nos outros 10 seres humanos mais importantes da sua vida, e não nos 678 amigos que não te cumprimentam na rua. Eu não estou dizendo que não é bacana, ter rede social. Pelo contrário. Ela encurta distâncias, te faz aprender com pessoas que você não teria oportunidade de ter contato se não fosse através dela. Te faz, por exemplo, falar com uma das 10 pessoas da sua vida diariamente, estando ela a quilômetros de você. Mas e, aquelas pessoas do seu dia a dia? Se otempo está escasso, como mediar isso? Como preterir estas pessoas ao contato virtual? É preciso ter sabedoria, muita sabedoria. Até porque, é bem mais difícil falar, olhando dentro dos olhos, do que para a tela do computador.

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Nota

A construção das diferenças

A escola sempre foi considerada a grande geradora de diferenças, desigualdades e distinções entre os seres humanos. Começou já separando os que nela entravam e os que não tinham acesso. Depois, separou os que já nela estavam, através de mecanismos de classificação, hierarquização e ordenamento, de acordo com a religião, idade, classe social e sexo.

Primeiramente, somente para alguns, depois, grupos a requisitaram e ao conseguirem o acesso foram modificando sua organização, seu currículo, prédios, docentes, regulamentos e avaliações que, mesmo assim, ainda acabavam por gerar as diferenças entre as pessoas.

Delimitando os espaços, afirmando o que cada um pode ou não pode fazer, a escola, estabelece, separa e informa o “lugar” de cada um de acordo com as características das pessoas.

Quadros, esculturas, crucifixos, santas, mostram os modelos que devem em tese, ser seguidos, e o prédio da escola, através de sua arquitetura, símbolos e marcas, estabelecem variados sentidos, constituindo diferentes pessoas.

Imagens, exemplos que representam momentos históricos e figuras heróicas, fazem com que algumas pessoas almejem ser como esses heróis. Ou ainda, há aqueles que não se interessam, não consideram isto como algo atrativo, ou não se vêem como merecedores, capazes.

É preciso perceber as variadas maneiras como as informações e vivências constituem as pessoas, implicadas na concepção, na organização e no fazer escolar do dia a dia. Até mesmo o tempo e o espaço da escola são percebidos de maneiras diferentes pelas pessoas.

A escola, com seus muros e salas de aula, ainda é um espaço de influência e construção da consciência social. Ela nos apresenta, por exemplo, o tempo de trabalhar e o de descansar, ou se divertir, lugares a onde ir e quando estar neles. Essas concepções são retidas, interiorizadas e tornam-se “naturais” , internalizadas através da cultura. As “verdades” e regras aprendidas na escola são de grande influência e interferem diretamente na formação de um povo.

Esta concepções “naturais”, regras indiscutíveis e ditas “óbvias” podem ser percebidas nas diferenças entre meninos e meninas, na maneira de agir e de se agrupar, e nós acostumamos a ver isto como a “ordem natural das coisas”. Além das diferenças sociais, de raça, sexo, etnia e de gênero que são apreendidas como algo que “põe cada qual em seu lugar”. A construção histórica dessas divisões é a explicação “coerente” para tais diferenças.

Os grupos mais variados construíram diversos modos de lidar e reter o significado do tempo e do espaço. É bem verdade que, com a popularização da internet, o tempo e espaço se resignificaram. O ambiente digital aproximou pessoas outrora distantes mas, se descartado seu papel e valor na sociedade, sua capacidade de mudança rumo a igualdade ou a desigualdade pode ser apenas mais um espaço “espelho” que reflete a sociedade e suas mazelas.

Os jogos na internet são divididos entre jogos para meninos e jogos de meninas. E esta diferenciação é apresentada por adultos e crianças que colocaram recentemente o termo “jogos de meninas” entre os mais buscados no Google (atual maior buscador da rede). Os pais ensinam e as crianças reproduzem esta verdade aprendida. As meninas entendem que jogos de futebol e com naves não são para elas, mas sim aqueles onde as bonecas devem ir ao shopping, comprar roupas, ir ao salão de beleza ou fazer comida. Como podemos continuar considerando isso natural?

Essas diferenças, e o desempenho de cada gênero são influenciados pelo sexo? Então como se explica a mistura bem sucedida de meninos e meninas em variadas atividades, além de meninos que se interessam pôr atividades mais calmas e meninas, o contrário? Situações inesperadas devem significar realmente desvio e trazer preocupações? Meninas que não gostam de boneca devem ser discriminadas? E o contrário? Devemos refletir sobre o forte impacto de atitudes, afirmações e daquilo que está a volta de nossas crianças, ensinando-lhes, desde cedo, a analisar criticamente, (sim, desde cedo, por que não? ) a questionar aquilo que lhes é apresentado.

Principalmente nos dias de hoje, com o acesso a variadas informações que nós adultos, pais e educadores, não tivemos em nossa infância. Precisamos refletir sobre o impacto de tudo o que lhes é apresentado, e lembrar que hoje, são muitos os bits & bytes apresentados a atual infância, jamais vistos por nós na mesma etapa da vida.

Porque escola e internet são para o bem, e para o mal, como gente.

Há que se abrir o olho, e a mente.

Texto escrito após a leitura dos seguintes materiais:

SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo.

Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

Undergoogle – http://www.undergoogle.com/blog/2008/geral/google-zeitgeist.html

Jogos de menina – http://www.jogosdemenina.com.br/ (entre outros parecidos)

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