Que tal um curso de “escutatória”? :)

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Mas todo homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”. ( Tiago, 1:19.) 

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar.

Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem.

Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”. Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia e que de tão linda nos faz chorar.

Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Rubem Alves

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Citação

Diferenças e a Harmonia

“A coisa mais fácil do mundo é encontrar diferenças. Difícil é harmonizá-las.”

Dalai Lamapatinhos

Estes dias vim conversando com outra professora da escola em que eu trabalho sobre isso. Como somos diferentes! E queremos sempre encontrar alguém que concorde conosco, que apoie a nossa ideia, que adivinhe o que nós queremos dizer, o que estávamos pensando, o que sentimos… doce ilusão e como causa dor pensar desta forma. 

O que traz tranquilidade e harmonia é o diálogo. Mas para isso, não basta só sentar e conversar, falar o que se pensa, de forma desorganizada. É preciso estar disposto, respirar fundo e buscar se colocar no lugar do outro, por traz de sua retina. Dar um pause nas conexões mentais que elaboram pensamentos o tempo todo, e procurar seguir a linha de raciocínio, a construção mental que o outro está elaborando. Procurar tentar detectar o porque do comportamento alheio inicialmente de um prisma positivo, dando oportunidades ao outro de demonstrar o que sente. Para isso é preciso paciência. Tempo. Ah… o tempo. Este nosso escasso amigo, que anda distante, viajando muito, e por isso, quase não o encontramos. No mundo atual, você está 24 h conectado com os outros e desconectado de você, de quem está do seu lado no dia a dia, na sua casa. Então como obter harmonia sem diálogo, sem olho no olho, sem ouvir uma música juntos, sem compartilhar pensamentos e dificuldades?

O desafio da atualidade está em ser você, em mostrar você, sem deixar de olhar o outro, de estar com o outro, de estar para o outro, de estar no outro, conectado na alma, e não somente na sua rede social preferida. Estar conectada com o coração nos outros 10 seres humanos mais importantes da sua vida, e não nos 678 amigos que não te cumprimentam na rua. Eu não estou dizendo que não é bacana, ter rede social. Pelo contrário. Ela encurta distâncias, te faz aprender com pessoas que você não teria oportunidade de ter contato se não fosse através dela. Te faz, por exemplo, falar com uma das 10 pessoas da sua vida diariamente, estando ela a quilômetros de você. Mas e, aquelas pessoas do seu dia a dia? Se otempo está escasso, como mediar isso? Como preterir estas pessoas ao contato virtual? É preciso ter sabedoria, muita sabedoria. Até porque, é bem mais difícil falar, olhando dentro dos olhos, do que para a tela do computador.

Nota

Viva

Ignorar o que não se quer ver,
pintar o mundo da cor que lhe convém.
Nem todos gostam das mesmas cores,
nem todos querem olhar as mesmas coisas.
Respeitar e se importar com o outro é demonstração de amor.
O contrário é indiferença.
Não sei com certeza o que eu quero da vida,
mas sei muito bem o que eu não quero.
E isso, eu sei bem, não quero não.
Quero amor, em abundância.
Não vazio, discreto, cinza, meio tom.
Quero transbordante, cheio de vida, estridente.
Porque a vida é curta.
E o agora já foi a pouco.
E o daqui a pouco já é o agora, agora já é nada.

Classificados Poéticos I

Por favor, reservem dois lugares

num disco voador,
um pra mim, outro pro meu amor

que eu tenho sede de céu,
tenho fome de estrelas
e uma vontade louca de mastigar
violetas 

Prefiro partir nas primeiras horas do dia
quando as nuvens ainda são suave carícia.
Levarei comigo uma bagagem tão pequena
que ninguém nem mesmo notará:
uma bússola feita de vento
e um embrulho de sonhos
mais leve que a luz.

Quero encontrar um planeta
onde os homens tenham as mãos
de tal modo azuis
que ninguém saiba direito se são mesmo
homens ou se são anjos ou pássaros

Minha nave descerá suavemente
num campo de girassóis
e os homens acenarão sorrindo
sem medo nenhum.

Quando vejo numa noite escura
alguma estrela solitária semeando o céu,
sinto pressa de partir.

Roseana Murray

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